Uma reflexão sobre: O “mau comportamento” o “cantinho do pensamento” e seus efeitos colaterais. Existem outras estratégias?

Se pensarmos na criação em que muitos de nós tivemos, onde pais e mães eram pessoas autoritárias, ajudar as crianças a trilharem seus próprios caminhos através do afeto e do respeito pode ser uma tarefa muito difícil. Atualmente temos acesso a inúmeros materiais que nos fazem entender como agir de forma assertiva no processo de educação e desenvolvimento, dentre eles, destaco a educação Positiva e o Montessori, que possuem embasamento na conexão entre pais e filhos. Ao meu ver, é fundamental substituir o “autoritarismo” por “respeito”.

Vale ressaltar que o “mau comportamento”, quase sempre é uma maneira das crianças comunicarem uma necessidade não atendida que, muitas vezes, nem eles sabem como dizer. A exemplo do que estou falando, pense em uma criança com sono. Nem sempre essa criança simplesmente deita no ombro do pai e dorme. Muitas vezes a criança com sono fica chorosa e irritada até que seu responsável propicie um ambiente adequado para ela adormecer.

O tão famoso cantinho do pensamento é muito utilizado por não ter sido antes de mais nada, examinado profundamente pelos pais ou responsáveis. De forma geral, a sociedade compreende o cantinho do pensamento como uma ferramenta onde não se aplica a punição física e sendo assim, não o considera como agressão, fazendo acreditar que este meio é correto. Neste texto, quero mostrar o que o cantinho do pensamento faz de fato a criança pensar.

Quando colocadas no cantinho do pensamento, as crianças tendem a agir manifestando as seguintes emoções e sentimentos:

Algumas se manifestam través da tristeza. São aquelas crianças que quando castigadas, percebem que as coisas não vão bem, elas ficam tristes, choram e se fecham. Outras crianças se expressam através da raiva. São  aquelas crianças que quando sentem que as coisas não vão bem, elas ficam furiosas, agressivas ou bravas.

Complementando a informação acima e para termos mais dados para reflexão, vou citar Jean Piaget (psicólogo e grande estudioso sobre o pensamento infantil) onde ele disse que o desenvolvimento infantil ocorre de maneira tal que, a partir dos 7 anos, a criança começa a abstrair dados da realidade, mas somente aos 12 anos a criança consegue atingir a capacidade da abstração total. Sendo assim, não adianta colocar uma criança para pensar sobre o que ela fez de errado se ela ainda não possui idade suficiente para tal elaboração.

Você já parou para pensar sobre o que a criança no cantinho do pensamento pensa? A resposta é simples: Em tudo, e talvez em nada! A criança se distrai, pensa na cor da parede, no teto, nas pessoas que passam por perto e etc.  O mais comum de se acontecer é que o pensamento da criança fique disperso, confuso e nada flui de aprendizado com essa coerção. No momento do “castigo”, acontecerá uma mistura de sentimentos na cabeça da criança, pois ela ainda não sabe lidar com as emoções com a mesma clareza que o adulto.

A expectativa do adulto que coloca a criança no cantinho do pensamento é de que a criança reflita e perceba que o adulto tinha razão. Mas a criança não tem tamanha reflexão neste momento.

Vale lembrar que quando as crianças são castigadas, cada uma tem uma reação diferente e isso se deve ao tipo de temperamento que cada uma tem. As crianças de temperamento cujo predomina a tristeza, acentuam seus sentimentos de culpa, rejeição, vergonha e medo. É como se eles pensassem da seguinte forma: Foi tudo minha culpa! Eu nunca faço nada direito! Eu não consigo! Eu não dou conta! Eu nunca agrado meus pais! Para estas crianças, o cantinho do pensamento provoca mais tristeza e menos ação.

Já as crianças da raiva, quando vão para o cantinho do pensamento, acentuam nelas os sentimentos da ação, da hiperatividade e furor. Daí elas pensam: Eu não gosto mais de você! Eu não queria ser sua filha! Eu vou morar com a vovó! Crianças da raiva, colocadas em castigo sentem uma necessidade muito grande de se expressar através de ações como bater, morder, apertar e quebrar.

Acredito que com essas informações, você deve até ter identificado seu filho ou a criança que você acompanha no dia a dia. E aí, você continua achando que cantinho do pensamento agrega valor?

Ao meu ver, este é um recurso que não desperta a construção dos valores, dos princípios, da análise, do raciocínio e da coerência. Sendo assim, o cantinho do pensamento não contribui para o desenvolvimento saudável de uma criança.

Mas se o cantinho do pensamento não é legal, o que devemos fazer?

Proponho aos pais e educadores uma tarefa mais complexa, mas com efeitos positivos e duradouros. Estudem! Mas estudem muito, diariamente. Educar não é uma tarefa simples, nem muito menos com manual de instruções. Que tal, antes de utilizar a experiência do cantinho do pensamento, compreender as fases do desenvolvimento infantil para entender o que está acontecendo com a sua criança? O que ele pensa e sente nessa fase. Troque este cantinho por uma boa conversa reflexiva e evite fazê-la em momentos em que você ou criança estiverem nervosos. Faça-a em um outro momento, quando ambos estiverem calmos e for possível comunicar com tranquilidade e assertividade. Que tal se conectar com sua criança? Que tal, trocar o cantinho do pensamento por contar uma história bem lúdica levando a criança refletir acerca do ocorrido. Usar metáforas sempre é uma boa estratégia, mas realize de forma bem convincente. Abuse e use do humor para levar a criança a fazer o que se deve fazer de forma leve descontraída, assim você promoverá aprendizados satisfatórios e com relações saudáveis. Tentar compreender o que está acontecendo com ela e realizar a empatia cognitiva, com certeza será um ótimo caminho. Lembre-se: você é o adulto nessa relação e saberá lidar melhor com as dificuldades do que a criança. Sendo assim, ajude a sua criança a reconhecer seus sentimentos e lidar com eles de forma tranquila.

Nem tudo é birra ou falta de limite. Como bons educadores, temos que buscar conhecimento para compreender melhor e agir de forma assertiva.

Comentários

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1 comentário em “Uma reflexão sobre: O “mau comportamento” o “cantinho do pensamento” e seus efeitos colaterais. Existem outras estratégias?

  • Nazaré… Parabéns pelo texto! Acredito que agora vou pensar duas vezes antes de mencionar o cantinho do pensamento.

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