A Fada do Dente

Confesso que sempre tento me preparar para não ser pega de surpresa. Mas, com a última novidade, não houve preparação.

Desde muito pequena, levamos nossa princesinha para acompanhamento com uma excelente odontopediatra aqui em BH. Fizemos a escolha pautada na indicação da pediatra da Clarinha, pois, sempre levamos em consideração a experiência de profissionais com crianças que nasceram com fissuras lábio palatais. Como todos sabem, Clarinha nasceu com lábio leporino e fenda palatina transforame a esquerda.

Desde a primeira visita na odontologia, até hoje, o que Clarinha ganhou foram só elogios. Dentes saudáveis, bem limpinhos e cuidados. Acredito que tudo seja resultado de bons hábitos alimentares atrelados a higienização adequada. Felizmente ela não precisou de passar por nenhum procedimento, nem limpeza foi necessária até o momento.

Na penúltima consulta, foram feitas as primeiras radiografias para vermos a questão dos dentinhos que estão por vir e também para visualizarmos se existia ou não o dentinho que nomeamos carinhosamente por “escondidinho”, que se localiza na região da fenda na gengiva. Dra. Ângela com as radiografias em mãos, nos antecipou: Em breve virão dentes enormes! Saímos da consulta, mais uma vez felizes e aliviados, afinal, nenhum problema foi detectado. O próximo retorno, foi agendado para três meses à frente.

Na semana seguinte da consulta, Clarinha começou a reclamar de uma sensibilidade nos dentinhos. Calmamente olhei, e disse a ela que estava tudo bem. Afinal, tínhamos acabado de visitar a dentista e até radiografias haviam sido feitas.

Uma semana depois ela relata novamente a sensibilidade. Só que desta vez, logo ao acordar. Novamente a mamãe foi examinar e… O dente estava mole! Como mãe de primeira viagem, filmei o dentinho e logo enviei para a dentista dela pedindo socorro. Agendamos uma consulta para o dia seguinte em critério de emergência. Em minhas consultas rápidas ao DR. Google, os primeiros dentinhos normalmente caem entre 5 a 7 anos. Confesso que fiquei um pouco assustada devido a precocidade da Clarinha, pois ela ainda nem havia completado 5 aninhos.

Recordando de minha infância, constatei que eu ficava com o dente “bambo” na boca por inúmeros dias. Eu morria de medo de arrancar os dentes. Tenho gravado em minha memória, um trágico dia ao qual uma dentista arrancou meus dois dentes superiores num passe de grosseria. Tentei não projetar na Clarinha minhas lembranças. Apenas disse a ela: Isso é normal, faz parte do seu crescimento, você já tem quase 5 aninhos. Mais cedo ou mais tarde, a fadinha do dente teria que aparecer. Prepare-se para a aventura da nova janelinha!!! Clarinha com um grau de maturidade assustador e com tamanha independência me respondeu naquele momento: Hoje mesmo vou arrancar esse dente daqui! Confesso que me assustei e disse a ela: Calma!!! Não precisa ter pressa, amanhã a Dra.  Ângela examina e te fala como proceder. A partir desse momento, toda hora que Clarinha me olhava ela dizia: Estou movimentando meu dentinho, vou arrancar. Acreditem, no mesmo dia ela arrancou! Sem medo e sem choro.

Foi tudo lindo? Em partes! A coragem foi sensacional, mas a primeira olhada no espelho foi trágica!

Clarinha é supervaidosa. Assim que se viu no espelho disparou: Estou horrível, estou péssima, nunca mais vou sorrir! Parei tudo que estava fazendo e fomos conversar e brincar. Disse a ela que a “janelinha” em breve daria lugar a um novo dente. Tentei mensurar mais ou menos o tempo, só que ela ficou mais irritada. Todo tempo para criança parece ser muito distante. Mudei novamente o sentido da conversa, pois percebi que o diálogo não seria o mais assertivo naquele momento. Recolhi todas as bonecas e montei um consultório odontológico. Me apresentei como a Dra. Sorriso e logo comecei a atender minhas pacientes que estavam aguardando para consulta. No início, Clarinha se recusou a brincar comigo, mas no decorrer dos atendimentos ela se tornou minha assistente. Hora uma boneca chegava de janelinha para examinarmos, hora chegava de dente mole para arrancarmos. Haja criatividade, extraímos dentes das mais inusitadas formas. Teve até paciente que engoliu o dentinho! Quarenta minutos de brincadeiras e o sorriso já tinha retornado ao rostinho da minha pequena. Ufa!!!

A partir daquela tarde, conhecemos nosso quarto sorriso. O primeiro foi o sorriso aberto, o segundo foi quando realizamos a cirurgia do lábio, o terceiro quando nasceram os dentinhos e o quarto, esse sorriso lindo de janelinha. Haja coração para vivenciar essas fases lindas e abençoadas!

Mais tarde, o papai chegou do trabalho trazendo um “presentinho” para nossa mais nova “Banguelinha”. Essa foi uma forma de dizer a ela que estávamos felizes pela coragem e determinação dela em arrancar sozinha o dentinho e também de dizermos a ela o quanto estávamos contentes com o novo sorriso dela.

Ao deitarmos para dormir, Clarinha chorou novamente. Ela não queria que a Fada do Dente levasse seu primeiro dentinho. Disse que ficaria com muitas saudades dele caso ela levasse. Diante de tanta emoção, afirmei que eu iria deixar um recadinho para a Fada não levar o dentinho. Combinei com Clarinha que iria dizer a Fadinha, que meu sonho era fazer um pingente para meu colar com esse primeiro dentinho. Antes de dormir, Clarinha embrulhou seu dentinho em um lencinho de papel e colocou ele dentro da naninha que ela dorme abraçada. Disse que dessa forma, ela tinha certeza de que a Fadinha não o levaria.

No dia seguinte, Clarinha acordou com um presentinho que a Fadinha deixou. Acordou super animada e logo foi para frente do espelho. Enfim respiramos aliviados, pois, naturalmente ela disse: “Não é que estou começando a gostar desse novo visual?!” Esse segundo dia de janelinha foi agitado, pois Clarinha fazia questão de mostrar para todo mundo a “Janelona”.

O recado que quero deixar com nossa experiência é: trabalhe com naturalidade as demandas de seu filho e tente não projetar neles suas experiências e angústias. Tudo dará certo se você o ajudar de forma correta.

Desculpem-me pelo longo texto. Não consegui retirar alguns detalhes que julgava necessário para que compreendessem melhor nossa história. Espero contribuir com nossa experiência para quando passarem também por essa fase linda e “desdentada”.

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